"Um milhão de finais felizes", de Vitor Martins
- Literistórias

- Feb 5
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Por Victor Menezes¹
Em uma nota escrita em 1960 sobre seu romance Maurice, E. M. Forster explicou que a opção por um final feliz era uma condição indispensável para a própria existência da obra, escrita entre 1913 e 1914, mas publicada apenas em 1971, após sua morte. Forster reconhecia que esse desfecho teria causado um impacto negativo na recepção do romance caso ele tivesse sido lançado logo após a conclusão de sua escrita. Isso porque, a ausência de uma punição trágica aos amantes contrariava as convenções morais da época e levaria a obra a ser considerada mais problemática do que seria se adotasse um final trágico para seus protagonistas LGBT+.
O historiador Vito Russo, no livro The Celluloid Closet (O armário do cinema, em tradução livre), publicado em 1981, denunciou como o cinema hollywoodiano, desde sua gênese, vinha representando personagens gays como predadores, solitários e/ou destinados a finais trágicos. Essa forma socialmente “aceitável” de presença de relacionamentos homoafetivos, tanto na literatura quanto no cinema ocidental contemporâneo, conforme demonstrado por Russo, pode provocar a compaixão de parte do público, mas também difunde imagens negativas sobre vivências não heteronormativas e reafirma o mito de uma infelicidade intrínseca à homossexualidade.
Não é preciso recuar muito no tempo histórico para encontrarmos narrativas com personagens LGBT+ que seguem lógicas semelhantes. Basta lembrarmos do romance Me Chame pelo Seu Nome (2007) e de sua adaptação cinematográfica (2017), assim como do filme Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore (2022). Em ambos os casos, a cena final associa a experiência do homem gay à angústia e à solidão. Embora E. M. Forster, há mais de um século, já defendesse a necessidade de contar histórias cujos finais possibilitassem a felicidade de homens gays, foi apenas na última década que o mercado editorial passou a se abrir, de forma mais consistente, a um projeto literário-político comprometido em narrar histórias LGBT+ com finais que oferecessem as mesmas possibilidades de felicidade que, desde o surgimento do romance como gênero no século XVIII, sempre estiveram disponíveis a personagens e casais heterossexuais.
É nesse contexto que, em 2018, o autor brasileiro Vitor Martins publicou o romance que se tornou um dos meus favoritos e cujo título pode ser lido como uma resposta direta à longa tradição de finais trágicos associados a personagens LGBT+: Um milhão de finais felizes. Narrado em primeira pessoa por Jonas, um jovem paulistano de 19 anos, o enredo parte de um ponto fundamental: o protagonista não questiona sua identidade sexual. Jonas sabe que é gay, reconhece-se como tal e não vive um conflito interno em relação a isso. As angústias que o atravessam dizem respeito, sobretudo, à forma como essa identidade será recebida por sua família.
Essa escolha narrativa desloca o foco da sexualidade enquanto dilema individual para a sexualidade enquanto experiência social. Jonas enfrenta dúvidas de ordem religiosa, perguntando-se se Deus o ama ou se o escuta, bem como incertezas de caráter profissional, já que ainda não cursa uma universidade; no entanto, essas indagações não colocam em xeque quem ele é. O conflito central não está em “aceitar-se”, mas em sobreviver emocionalmente a um ambiente familiar marcado pelo machismo e pelo conservadorismo religioso: seu pai é descrito como agressivo e homofóbico; sua mãe, evangélica, compartilha de valores conservadores sob a justificativa da fé. O lar, que deveria ser um espaço de acolhimento, transforma-se, assim, no lugar do medo, do silenciamento e da infelicidade.
Em contrapartida, Jonas encontra alívio na convivência com os amigos e no Rocket Café, seu local de trabalho. Esse espaço, que remete a redes como a Starbucks e se localiza na Avenida Paulista, funciona como um importante núcleo narrativo: é ali que o protagonista constrói novos vínculos afetivos, observa a movimentação dessa parte da cidade de São Paulo e conhece Arthur, seu par romântico. O café, assim como a casa dos amigos de Jonas, consolidam-se como lugares de sociabilidade, acolhimento e transformação, em contraste direto com o ambiente opressor do lar familiar. Esse contraste torna-se ainda mais evidente quando Jonas é expulso de casa após os pais descobrirem sua sexualidade. A cena de expulsão, ponto de inflexão do romance, explicita de forma contundente a violência da homofobia familiar e marca o início de um processo de reconstrução identitária e afetiva do protagonista, que o conduzirá a um final feliz.
Além da história de Jonas e de seu relacionamento com Arthur, personagem bissexual e de classe média alta, o romance apresenta um conjunto de personagens secundários densamente construídos. Karina, colega de trabalho de Jonas, torna-se sua melhor amiga e, posteriormente, sua companheira de moradia. Descendente de japoneses e descrita como uma mulher gorda, Karina é central para a discussão da gordofobia e do sexismo. Por meio dela, o autor expõe estereótipos racializados e corporais, como a expectativa de que mulheres asiáticas sejam magras, delicadas e submissas, denunciando a violência simbólica dessas projeções. Isadora, mulher lésbica, e Danilo, homem gay, negro e efeminado, amigos de Jonas desde o ensino médio, também desempenham papéis importantes. A trajetória de Danilo traz uma discussão sobre o racismo estrutural e a discriminação no mercado de trabalho.
Danilo, aliás, representa uma vivência gay distinta da de Jonas. Ele não é romântico, utiliza aplicativos de relacionamento e se envolve com múltiplos parceiros. Um dos méritos da narrativa está em não hierarquizar essas experiências: não há julgamento moral nem tentativa de estabelecer um modelo “correto” de vivência da sexualidade. Ao contrário, o romance valoriza a diversidade de trajetórias no interior do universo LGBT+, reconhecendo que diferentes formas de amar, desejar e se relacionar coexistem legitimamente. A personagem Dora Doralina, uma drag queen que se envolve afetivamente com Danilo, amplia ainda mais esse mosaico de identidades e performances, reafirmando o compromisso do autor com uma representação plural da comunidade LGBT+ brasileira contemporânea. A cidade de São Paulo também assume papel de destaque na narrativa, que é profundamente urbana e constrói sua ambientação por meio de referências constantes a espaços emblemáticos da cidade.
Outro elemento central da obra é sua dimensão metanarrativa. Jonas sonha em se tornar escritor, mas vive em constante dúvida sobre o que escrever: anota ideias em um caderno e, no dia seguinte, costuma descartá-las. Esse bloqueio criativo começa a ser superado quando ele cria Piratas Gays, um romance de fantasia inspirado em Arthur. A narrativa funciona como um espelho simbólico de sua própria vida, pois os estados emocionais de Jonas se refletem diretamente nos rumos da história que escreve. Quando está feliz, imagina finais felizes; quando enfrenta rejeição e dor, projeta desfechos trágicos. É também dessa relação entre vida e escrita que emerge o título do livro de Martins. Um milhão de finais felizes simboliza, assim, tanto por meio da jornada de Jonas quanto por meio de Piratas Gays, a recusa de uma narrativa única, trágica e predeterminada para sujeitos LGBT+, afirmando a multiplicidade de futuros possíveis.
¹ Victor Menezes é Bacharel e Licenciado em História e Mestre em História Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente desenvolve pesquisa de doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Unicamp e atua como organizador e mediador do Clube de Leitura Literistórias.




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