"De onde eles vêm", de Jeferson Tenório
- Literistórias

- Jan 6
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Por Victor Menezes¹
Em De onde eles vêm (2024), Jeferson Tenório propõe uma leitura crítica da sociedade brasileira contemporânea. Ambientado na Porto Alegre do início do século XXI, o romance acompanha Joaquim, estudante de Letras, e dois de seus colegas: Lauro, do curso de Direito, e Saharienne, também graduanda em Letras. Estes três são jovens negros que ingressam em uma universidade pública por meio das cotas étnico-raciais antes de sua regulamentação federal, ocorrida em 2012. A partir de suas trajetórias, a narrativa questiona discursos meritocráticos e sustenta a compreensão das ações afirmativas não como privilégios, mas como respostas mínimas às desigualdades estruturais e históricas
Dividido em quatro partes - “Levantando cavalos”, “De onde eles vêm”, “Sinnerman” e “A vida é boa” -, o romance alterna vozes narrativas e pontos de vista. À narração em primeira pessoa de Joaquim somam-se trechos em terceira pessoa que acompanham Lauro, Saharienne e dois docentes universitários, Moacir Malta e Berenice. Joaquim, além de narrador, é o protagonista da narrativa. Órfão, ele vive com a avó, que está em estágio avançado de demência, e com a tia-avó, empregada doméstica responsável pelo sustento da casa. Essa configuração familiar evidencia uma realidade ainda pouco debatida em nossa literatura: o envelhecimento marcado pela precariedade, pela ausência de políticas públicas adequadas e pela sobrecarga de mulheres idosas, que continuam trabalhando para garantir a sobrevivência dos seus.
Ao ingressar na universidade aos 24 anos, Joaquim se depara com um ambiente hostil, burocrático e excludente. Seu relato sobre a entrada pelo sistema de cotas é revelador: quase desiste antes mesmo de iniciar o curso, vencido por exigências administrativas que parecem concebidas para produzir desistências. A adaptação ao mundo acadêmico torna-se, assim, um desafio cotidiano. Joaquim logo percebe que a universidade pública pressupõe um perfil de estudante ao qual ele não corresponde plenamente. O romance expõe, desse modo, como o espaço universitário pode reproduzir desigualdades quando ignora trajetórias sociais distintas. Em paralelo, a trajetória de Joaquim aborda as tensões afetivas atravessadas pela desigualdade de classe, particularmente em seu relacionamento com uma jovem de condição econômica superior.
A trajetória de Lauro articula racismo e homofobia. Abandonado pelos pais após revelar sua orientação sexual, ele encontra na universidade pública uma possibilidade de autonomia pessoal e financeira. Sua história rompe leituras simplistas que dividem a sociedade apenas entre opressores e oprimidos: embora atravessada pelo racismo estrutural, sua família reproduz a violência homofóbica ao impor o rompimento dos vínculos afetivos. No ambiente profissional, a tensão se intensifica. Único homem negro em um escritório de advocacia, Lauro oculta sua relação com Pedro e evita demonstrações públicas de afeto. Em uma das minhas passagens favoritas do livro, sua reflexão sobre o “sair do armário” dialoga com Eve Sedgwick, em A epistemologia do armário (1993), ao evidenciar que a revelação da identidade sexual não é um ato único e libertador, mas um processo fragmentado, marcado por avanços, recuos e pelo medo constante da rejeição e da violência.
Por meio de Saharienne, o romance aprofunda o debate sobre gênero, raça e afetividade. Ela assume, em certa medida, o papel de madrinha acadêmica de Joaquim e ocupa posição central na discussão dos desafios específicos enfrentados por mulheres negras em seus relacionamentos amorosos. Ao contrastar experiências com homens brancos e homens negros, Saharienne argumenta que, nas relações inter-raciais, são recorrentes os silêncios que encobrem racismo, fetichização e a deslegitimação das vivências negras; já nos vínculos com homens negros, a afinidade inicial frequentemente cede lugar a uma sobrecarga emocional, que convoca as mulheres a acolher dores e violências sem que recebam atitudes recíprocas por parte de seus parceiros. A isso, ela conclui: “por isso digo que no fim das contas é sempre a gente que se fode. Porque não temos quem nos acolha verdadeiramente” (p. 149).
Além do trio protagonista, o romance dedica certa atenção a personagens como Sinval, Moacir Malta e Berenice. Ex-professor de escola pública e livreiro, Sinval surge como uma figura que orienta Joaquim em suas leituras literárias. Contudo, ao meu ver, sua concepção de literatura é profundamente elitista e despolitizada, mais prejudicial do que formativa para o protagonista. Por exemplo, ao afirmar que a literatura serve apenas para lembrar que estamos vivos e que vamos morrer, ele desencoraja Joaquim a escrever um conto que denunciaria violências racistas. Sua defesa da ideia de que escrever bem depende do quanto se sofreu na vida romantiza a dor e funciona como mais um entrave ao processo de escrita literária de Joaquim. É um personagem, preciso confessar, que me provocou raiva em todas as vezes em que apareceu.
Moacir Malta, professor universitário de Joaquim, encarna as ambivalências de parte do corpo docente diante da entrada de estudantes cotistas. Com sólida formação marxista e sensibilidade para questões sociais, ele reconhece a importância das transformações em curso, mas percebe que algo escapa a seus referenciais tradicionais. O desejo de apresentar os grandes clássicos da literatura convive com a consciência de que o perfil discente mudou e exige novas práticas pedagógicas. Por meio desse personagem, a narrativa evidencia o desconforto de quem reconhece a mudança sem saber, ainda, como responder plenamente a ela. Esse não saber, somado a problemas pessoais que atravessam sua trajetória, faz com que Moacir figure entre aqueles que contribuem para as experiências negativas vivenciadas por Joaquim na universidade.
Berenice, por sua vez, é inicialmente a professora favorita de Saharienne. Formada nos anos 1980, participante dos movimentos feministas e da luta contra a ditadura, ela articula teoria e experiência pessoal em sala de aula. No entanto, o questionamento de uma aluna cotista sobre a ausência de autoras negras na bibliografia de um de seus cursos expõe suas contradições. Ao reagir de forma defensiva e se apoiar na autoridade de anos de pesquisa, Berenice revela a dificuldade de responder a uma demanda que exige a revisão de cânones e práticas acadêmicas consolidadas. O seu posterior afastamento de Saharienne e o desejo de antecipar a aposentadoria simbolizam, na minha leitura, a resistência de setores que, embora progressistas em determinados contextos, encontram dificuldades para acompanhar as atuais transformações nos campos da esquerda.
Com esse conjunto de personagens, o romance de Jeferson Tenório se destaca por apostar na complexidade das experiências que se propõe a narrar. No centro da obra, a política de cotas raciais aparece não apenas como um mecanismo de acesso, mas como um vetor de transformação profunda da universidade e, por extensão, da sociedade brasileira. Ao dar forma a trajetórias possíveis e reconhecíveis de estudantes negros e periféricos, De onde eles vêm atua também como denúncia do despreparo - e das consequências desse despreparo - que ainda rege inúmeras instituições públicas no acolhimento desses sujeitos. A insuficiência das políticas de permanência, bem como a resistência à revisão de currículos e práticas pedagógicas, compõem um diagnóstico crítico do ensino superior no país, apresentado pelo autor sem concessões.
¹ Victor Menezes é Bacharel e Licenciado em História e Mestre em História Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente desenvolve pesquisa de doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Unicamp e atua como organizador e mediador do Clube de Leitura Literistórias.




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