"O crime do bom nazista, de Samir Machado de Machado

Por Victor Menezes¹
“Surgiu nos céus de Recife feito uma valquíria, avançando por entre as nuvens com uma serenidade que disfarçava sua marcha veloz. Visto de frente era apenas um disco de prata, um escudo cintilante”.
Assim começa O crime do bom nazista, romance policial histórico do escritor brasileiro Samir Machado de Machado, vencedor do Prêmio Jabuti de 2024 na categoria Romance de Entretenimento. O objeto ao qual o narrador se refere nesse trecho de abertura é o LZ 127 Graf Zeppelin, dirigível que, entre 1930 e 1937, realizou dezenas de viagens entre a Alemanha e o Brasil, com escalas em Recife e no Rio de Janeiro. É justamente a bordo dessa aeronave, em uma viagem do Recife para o Rio no início dos anos 1930, que se desenrola grande parte da narrativa do romance.
Assim como ocorre em O Assassinato no Expresso do Oriente (1934), um dos mais famosos livros policiais de Agatha Christie (1890-1976), o crime em torno do qual gira a narrativa de Samir Machado acontece durante uma viagem. O espaço fechado e em constante deslocamento isola os personagens do mundo exterior, concentra a tensão dramática e restringe o conjunto de possíveis suspeitos. Para evitar spoilers e preservar a experiência de leitura, basta dizer que a trama tem início com o assassinato do comerciante alemão Otto Klein. Cabe a Bruno, um investigador alemão, descobrir quem é o responsável pelo crime entre os passageiros do Graf Zeppelin, um grupo que inclui uma baronesa, um crítico de arte, um médico eugenista e membros da própria tripulação.
Em minha leitura, interpretei a narrativa como dividida em três partes. A primeira, composta pelos quatro capítulos iniciais, cumpre uma função de introdução ao romance. O capítulo de abertura apresenta os principais personagens, construídos como tipos sociais: a baronesa financiadora do Partido Nazista, o médico eugenista a caminho de um congresso no Brasil, o apreciador de arte moderna e o investigador Bruno. Nos capítulos seguintes, são apresentados os temas que atravessam toda a obra: a ascensão do nazismo, as perseguições à homossexualidade, o comunismo como alternativa política e a arte moderna como forma de resistência. Essa etapa inicial da narrativa se encerra com o assassinato de Otto Klein e com a descoberta, por Bruno, de que a vítima viajava sob uma identidade falsa.
A segunda seção da narrativa, que abrange os capítulos cinco a nove, é dedicada à investigação propriamente dita. Em uma estrutura que remete diretamente à tradição de Agatha Christie, cada capítulo acompanha o interrogatório de um dos suspeitos. Ao final desse processo investigativo, Bruno já reuniu os elementos necessários para solucionar o caso. O décimo e último capítulo constitui, sozinho, o que considero como terceira parte do romance. É nele que todos os segredos são revelados: a identidade do assassino, as motivações que moveram cada personagem e os destinos que os aguardam. Nesse momento, a narrativa abandona o presente dos anos 1930 e assume uma perspectiva histórica mais ampla, ancorada no conhecimento retrospectivo sobre aquilo que o nazismo viria a produzir nas décadas seguintes.
Cabe destacar, ainda, a presença de dois tipos distintos de narrador, escolha que demonstra o cuidado estético de Samir Machado de Machado. Nos nove primeiros capítulos, predomina um narrador externo à história, que se limita a descrever ações, diálogos e ambientes, sem acessar os pensamentos e motivações dos personagens. A escolha funciona muito bem, pois um narrador com acesso privilegiado à consciência dos suspeitos seria obrigado a revelar prematuramente a solução do mistério ou a recorrer a omissões pouco convincentes. No décimo e último capítulo, porém, ocorre uma mudança significativa: o narrador torna-se onisciente e acessa a interioridade dos personagens. É por meio dessa mudança de perspectiva que a identidade do assassino é finalmente revelada.
Como mencionado anteriormente, O Crime do Bom Nazista é ambientado no início da década de 1930, período em que ocorreu a ascensão do nazismo na Alemanha. Um dos aspectos desse contexto histórico explorados pelo romance é a Berlim da República de Weimar. Antes da chegada dos nazistas ao poder, a cidade era um dos centros culturais mais cosmopolitas da Europa e se destacava pela relativa abertura à comunidade LGBT. Bares, clubes e organizações funcionavam publicamente, enquanto figuras como o médico Magnus Hirschfeld, mencionado no romance, protagonizavam lutas pioneiras em defesa dos direitos sexuais e de gênero. A ascensão do nazismo destruiu rapidamente esse ambiente. Ao explorar essa transformação, o romance evidencia a fragilidade de direitos conquistados diante do avanço de projetos autoritários.
O romance apoia-se em uma pesquisa histórica sólida sobre o contexto de ascensão do nazismo, mas sua narrativa não se limita à reconstrução desse passado. O modo como o autor seleciona e apresenta o passado aponta para um diálogo com debates políticos contemporâneos, especialmente aqueles relacionados ao avanço de pautas conservadoras no Brasil nas últimas décadas. Ao privilegiar determinados aspectos da experiência nazista, como a perseguição a minorias, a eugenia e a cumplicidade de setores das elites econômicas e culturais, o romance constrói uma analogia implícita, mas facilmente reconhecível, com tensões presentes na vida política brasileira recente.
Um exemplo significativo dessa aproximação é a fala de um personagem que afirma não acreditar que o pior chegará a acontecer, pois confia que as instituições políticas seriam capazes de conter o avanço nazista. A passagem evoca a postura de muitos que acreditavam que Jair Bolsonaro não chegaria à Presidência da República. Ao evidenciar os perigos de subestimar movimentos extremistas, a cena funciona como um alerta narrativo. O nazismo, assim, não é representado como um fenômeno histórico encerrado no passado, mas como uma experiência cujas lógicas e discursos podem ressurgir sob novas roupagens. Para o leitor brasileiro contemporâneo, é difícil não perceber ecos dessa reflexão nos debates em torno do bolsonarismo.
O Crime do Bom Nazista funciona, portanto, muito bem como romance policial e comentário sobre questões contemporâneas. Vale notar, porém, que o romance deixa escapar uma oportunidade: entre os personagens centrais, a única mulher com papel de destaque é a baronesa Fridegunde van Hattem, associada ao financiamento do nazismo. Num livro tão atento às perseguições sofridas por minorias, a ausência de vozes femininas de resistência é uma lacuna que merece ser considerada. Apesar dessa ressalva, penso que a obra combina com habilidade entretenimento, pesquisa histórica e reflexão política. Concorde ou não com suas posições, o leitor dificilmente passará pela narrativa sem ser levado a refletir sobre suas próprias convicções e sobre o mundo em que vive.
¹ Victor Menezes é Bacharel e Licenciado em História e Mestre em História Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente desenvolve pesquisa de doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Unicamp e atua como organizador e mediador do Clube de Leitura Literistórias.




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