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"O centésimo em Roma", de Max Mallmann

  • Writer: Literistórias
    Literistórias
  • May 15
  • 4 min read

Por Natália F. Campos¹



O historiador e geógrafo estadunidense David Lowenthal (1923–2018) costumava dizer que “o passado é um país estrangeiro”. Assim como em uma viagem a outro país, o passado nos confronta com costumes, crenças e valores que muitas vezes nos parecem estranhos. Uma das formas de conhecermos e compreendermos esse “país estrangeiro” é por meio da ficção histórica. Ainda assim, essas narrativas frequentemente dizem mais sobre o momento em que foram escritas do que sobre o passado que pretendem representar. Em outras palavras, elas revelam muito do presente de seus autores.

Em O centésimo em Roma, romance histórico escrito pelo brasileiro Max Mallmann e publicado pela Editora Rocco em 2010, temos a oportunidade de observar justamente isso. Neste primeiro volume de uma duologia (cujo segundo livro, “As mil mortes de César”, foi publicado em 2014) Mallmann apresenta ao leitor uma Roma dos anos 68-69 d.C, período conhecido como “o ano dos quatro imperadores”, marcada por tensões políticas, corrupção, violência e profundas desigualdades sociais. Entre tabernas, praças tumultuadas e ruas povoadas por indivíduos vindos de diferentes regiões do Império, o romance acompanha a trajetória do centurião Desiderius Dolens em sua tentativa de conquistar, a qualquer custo, um lugar no Senado romano.

O título do romance, inspirado em uma passagem do conto “Um Homem Célebre” (1896), de Machado de Assis, ajuda a compreender o protagonista: assim como o personagem machadiano, Dolens não se importa em ser “o centésimo em Roma” desde que consiga sua ascensão social. Os romanos de Mallmann formam um grupo heterogêneo. Ainda assim, quase todos compartilham o mesmo desejo de encontrar alguma forma de prosperar em meio a uma sociedade extremamente hierarquizada.

Essa sociedade é apresentada por Mallmann a partir de uma série de problemáticas e contradições bastante familiares ao Brasil contemporâneo. Qualquer semelhança entre Dolens, seus urbaniciani (corpo militar responsável pelo policiamento urbano em Roma) e as polícias brasileiras parece longe de ser coincidência. Ao longo do romance, os soldados aparecem menos como heróis gloriosos e mais como funcionários públicos mal pagos, atravessados pela corrupção, pela brutalidade e pelas disputas de poder. A forma como as legiões mudam de lado conforme os interesses dos pretendentes ao cargo de imperador também aproxima Roma de dilemas bastante familiares à história política brasileira. 

Um tema raramente explorado na ficção histórica sobre a Antiguidade Clássica, e que O centésimo em Roma aborda de maneira bastante interessante, é a relação homoerótica entre duas mulheres. Ainda que as personagens femininas tenham pouco impacto na narrativa principal, a relação entre Desidéria, irmã de Dolens, e a médica Eutrópia recebe destaque e é apresentada sem idealizações, deixando explícito o desconforto que ela provocava em determinados grupos da sociedade romana. Ao mesmo tempo, momentos como aquele em que a mãe de Dolens e Desidéria demonstra preocupação com o que os vizinhos irão pensar dessa relação evidenciam as influências do nosso próprio tempo sobre a trama. 

A temática das sexualidades, aliás, indica certo diálogo de Mallmann com a historiografia recente sobre o período. O autor escolhe, por exemplo, não apagar aspectos da cultura romana que ainda causam desconforto em nossa sociedade e, por isso, costumam ser suavizados ou ignorados em muitas representações modernas da Antiguidade. Os personagens do romance não compreendem sexualidade da mesma forma que nós, nem possuem categorias identitárias equivalentes às atuais. Por isso, a relação entre o senador Trebelius Nepos e seu escravo aparece como algo natural e socialmente aceito, assim como o fato de Dolens mencionar espontaneamente já ter se relacionado com mulheres e rapazes. 

Essa escolha narrativa de Mallmann é interessante e relativamente incomum. Em geral, quando obras ambientadas na Antiguidade representam relações homoeróticas, elas costumam aparecer em segundo plano ou associadas a personagens vistos como moralmente desviantes (algo que é bastante comum, por exemplo, em filmes hollywoodianos). A perspectiva adotada por Mallmann, no entanto, permite não apenas confrontar as ideias heteronormativas que muitos leitores têm sobre a Roma Antiga, mas também retratar figuras historicamente polêmicas, como Nero, de forma menos moralizante e maniqueísta. 

Outro ponto em que Mallmann se distancia de muitas representações da Roma Antiga está na forma como retrata os cristãos. Apesar de evitar dicotomias simples ao longo do romance, talvez eles sejam os personagens mais próximos do imaginário tradicional de “vilões”. Nas notas finais, o próprio autor admite ter uma relação conturbada com a religião e reconhece que o livro também funciona como uma maneira de lidar com experiências pessoais. É difícil não perceber, nessa representação, ecos do Brasil contemporâneo, especialmente das versões neopentecostais do cristianismo. Mercadores da fé, intolerância e discursos moralistas dizem muito mais sobre o nosso presente do que sobre os primeiros cristãos, ainda que os romanos também tenham visto esse grupo com desconfiança. 

A escrita de Mallmann é dinâmica e equilibra bem as cenas de ação com os momentos de apresentação de aspectos do cotidiano romano. Costumes, tensões políticas e relações sociais da época são retratados sem transformar Roma em um cenário exótico ou idealizado. Também chama atenção a pesquisa realizada pelo autor em documentos escritos do período que chegaram até nós, perceptível nas inúmeras referências espalhadas ao longo da narrativa: do hábito de Domiciano de matar moscas com um estilete ao casamento de Nero com um eunuco. Ambos os episódios, por exemplo, aparecem nas biografias desses imperadores escritas por Suetônio no século II d.C.

Ao mesmo tempo, Mallmann insere de forma proposital frases e referências modernas, como quando adapta discursos de Winston Churchill ou trechos do Hino à Proclamação da República do Brasil para falas de personagens romanos. Esses anacronismos lembram ao leitor que, por meio do romance, ele entra em contato com apenas uma entre muitas possíveis interpretações da Roma Antiga, e não com um espelho fiel de como as pessoas viveram naquele período. Aquilo que talvez seja o aspecto mais sedutor da ficção histórica, a busca por estarmos diante de uma reprodução exata do passado, é algo impossível de ser alcançado. E Mallmann parece fazer questão de que seu leitor esteja ciente disso. 


¹ Natália F. Campos é doutora em História Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente, realiza pesquisa de pós-doutorado na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Contato: nataliafcampos@gmail.com

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