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"Maurice", de E. M. Forster

  • Writer: Literistórias
    Literistórias
  • 3 days ago
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Por Victor Menezes¹



Maurice é um romance do autor inglês E. M. Forster (1879-1970), escrito por volta de 1913-1914 e publicado postumamente, em 1971. O motivo para sua publicação tardia se deve à temática central de seu enredo: o homoerotismo masculino. Em uma nota redigida em setembro de 1960 e publicada junto ao romance, Forster explicou que considerava imperativo oferecer ao protagonista um final feliz e que essa escolha narrativa, por si só, tornara a publicação inviável enquanto a homossexualidade masculina era considerada crime na Inglaterra, o que ocorreu entre 1885 e 1967. 

Ambientado no mesmo período histórico em que foi escrito, Maurice pode ser considerado um romance de formação, já que acompanha o desenvolvimento físico, intelectual e psicológico de seu protagonista da adolescência à vida adulta. O romance se inicia com Maurice Hall, aos quatorze anos, aprendendo com seu professor um conjunto de expectativas socialmente construídas sobre masculinidade: ele deveria tornar-se o líder do lar, e seu destino afetivo e sexual deveria estar exclusivamente ligado às mulheres. Esse horizonte normativo enquadra a trajetória do protagonista desde cedo e é contra ele que sua formação identitária se desenvolve. 

Contrariando o que aprendia (e sem conseguir nomear o que sentia), o jovem Maurice já nutria sua primeira paixão por uma pessoa do mesmo sexo: George, o ajudante do jardineiro de sua família. Quando retorna para as férias e descobre que o rapaz não trabalha mais para os Hall, Maurice sofre profundamente. Tal sofrimento, contudo, não se equipara ao que vivenciará no início da vida adulta em razão de Clive Durham, seu colega de Cambridge. Um ano mais velho, Durham é o primeiro interesse amoroso com quem Maurice consegue viver um romance, ainda que baseado somente no afeto. Influenciado por suas leituras do filósofo grego Platão, Clive recusa dar qualquer dimensão sexual ao relacionamento. 

Após se formar, Clive decide romper tanto com sua interpretação platônica do homoerotismo quanto com o próprio relacionamento. Movido, sobretudo, pela tentativa de adequar-se às expectativas da sociedade inglesa da época, afirma não mais se sentir atraído por homens e anuncia sua intenção de levar o que chama de “vida normal”. Tomado pela angústia, Maurice chega a buscar auxílio médico e a recorrer à hipnose na tentativa de “curar-se”. Logo percebe, porém, que não há cura para aquilo que não é uma doença. Ao abandonar essa busca e iniciar um relacionamento com Alec Scudder, o guarda-caças da propriedade dos Durham, Maurice passa, então, a experimentar pela primeira vez uma vivência plena de sua sexualidade. 

Apresentado o enredo, vale dizer: Maurice é um dos meus romances favoritos e me toca profundamente pela maneira como Forster apresenta vivências homossexuais masculinas do início do século XX. O que me fascina no livro, contudo, vai além do homoerotismo em si e engloba a forma como uma parcela da sociedade inglesa da época é retratada e criticada. Isso porque Forster não discute o amor e o desejo entre homens de forma isolada. Ao longo da narrativa, ele também aborda masculinidades, normas de gênero e as estruturas de classe da Inglaterra eduardiana (1901–1910). Esses elementos aparecem sempre conectados, e as experiências afetivas e sexuais dos personagens estão diretamente ligadas ao lugar que cada um ocupa naquela sociedade e às expectativas que lhes são impostas. 

Forster também não constrói Maurice como um herói idealizado. Pelo contrário: o protagonista carrega muitos dos preconceitos e valores de sua formação social. Ele performa expectativas rígidas de masculinidade, é frequentemente desagradável com as mulheres da própria família (especialmente com as irmãs) e demonstra comportamento misógino em diferentes momentos do romance. Ao mesmo tempo, mostra-se sensível, afetuoso e vulnerável em suas relações com outros homens. Maurice percebe o peso das normas que o oprimem enquanto homem homossexual, mas não enxerga que essas mesmas normas também limitam suas irmãs enquanto mulheres. Forster não o absolve dessa contradição e é justamente por isso que Maurice funciona como representante de uma época, não como ideal a ser seguido. 

Quanto às questões de classe, elas se manifestam no romance, em particular, por meio das diferentes origens sociais de Maurice, Clive e Alec. Maurice vem de uma família da burguesia urbana. Clive, por outro lado, pertence à elite aristocrática e é herdeiro de terras e propriedades. Já Alec trabalha na propriedade dos Durham, sendo representante da classe trabalhadora. A forma como Forster introduz Alec na narrativa é especialmente interessante para pensarmos essa temática: o autor apresenta o personagem de maneira gradual, quase reproduzindo para o leitor a invisibilidade social que trabalhadores como Alec experimentavam diante das elites inglesas da época. 

Inicialmente, Alec surge sem nome e sem rosto: é apenas “o guarda-caças”. Depois, passa a ser identificado pelo sobrenome. Somente após a primeira relação sexual entre eles, Maurice finalmente pergunta seu primeiro nome. Esse detalhe não serve apenas para caracterizar psicologicamente o protagonista. Por meio dele, Forster também critica uma sociedade em que membros da burguesia e da aristocracia frequentemente ignoravam a individualidade daqueles cujo trabalho sustentava seu modo de vida. O romance, assim, primeiro reproduz essa invisibilidade para depois desfazê-la gradualmente, à medida que Maurice, e também o leitor, passa a enxergar Alec como sujeito.

A diferença de classe entre Maurice e Alec não funciona, portanto, apenas como pano de fundo. Ela estrutura os principais conflitos da segunda metade do romance e influencia diretamente o destino dos personagens. Para que o relacionamento entre os dois se torne possível, Maurice precisa rever ao menos parte dos preconceitos de classe que aprendeu ao longo da vida. Esse processo, porém, está longe de ser simples: em vários momentos, Maurice oscila entre o desejo e o desprezo, entre a atração por Alec e a postura paternalista que sua origem de classe faz com que reproduza quase automaticamente. É justamente nessa tensão que o romance encontra sua força e seu desfecho subversivo: num contexto literário em que personagens homossexuais raramente eram poupados da tragédia, Forster oferece a dois homens de classes distintas a felicidade.


¹ Victor Menezes é Bacharel e Licenciado em História e Mestre em História Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente desenvolve pesquisa de doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Unicamp e atua como organizador e mediador do Clube de Leitura Literistórias.


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