"Orgulho e Preconceito" de Jane Austen
- Literistórias

- Jan 6
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Por Victor Menezes¹
Escrito entre 1796 e 1797 e publicado em 1813, Orgulho e Preconceito é hoje o romance mais conhecido da escritora inglesa Jane Austen (1775-1817). Ambientada na zona rural da Inglaterra do início do século XIX, a narrativa acompanha o convívio entre três famílias centrais: os Bennet, os Bingley e os Darcy. Cada uma delas, assim como suas propriedades, representam posições distintas dentro das chamadas classes médias rurais da época: Longbourn, o lar dos Bennet, situado no condado de Hertfordshire, é descrito como uma propriedade modesta, com renda anual de cerca de duas mil libras. Tal valor posiciona essa família na baixa aristocracia rural.
Em contraste, o Sr. Bingley, recém-chegado a Netherfield Park, também em Hertfordshire, representa a alta burguesia enriquecida pelo comércio. Com uma renda anual de cinco mil libras, ele adota o estilo de vida aristocrático, embora sua origem mercantil o distinga da nobreza tradicional. Já o Sr. Darcy ocupa o topo dessa hierarquia social: proprietário de Pemberley, no condado de Derbyshire, possui uma renda anual de dez mil libras. No romance, essas diferenças econômicas não são meros detalhes: elas estruturam os conflitos dramáticos e funcionam como a base das adversidades enfrentadas pelas protagonistas, as irmãs Jane e Elizabeth Bennet.
A sociedade na qual essas personagens estão inseridas confunde virtude com elegância e caráter com renda. O casamento, mais do que uma união afetiva, é visto como o principal mecanismo de segurança econômica e mobilidade social para as mulheres. Nesse contexto, a urgência em casar as cinco irmãs Bennet antes da morte do pai - um dos motes centrais da trama - remete a uma realidade jurídica característica do período em que o romance foi escrito: a herança de propriedades como Longbourn só podia ser transmitida por linhagem masculina. Isso colocava a Sra. Bennet e suas filhas em situação de vulnerabilidade, sujeitas à queda de status social e à dependência da caridade ou de profissões femininas consideradas “respeitáveis”, como o trabalho de governanta ou professora.
Ao apresentar o destino das irmãs Bennet como dependente do casamento não enquanto ideal romântico, mas como mecanismo de sobrevivência econômica, Austen constrói uma crítica às leis e aos costumes patriarcais da Inglaterra de seu tempo. Essa dependência feminina é evidenciada também por meio de personagens como Charlotte Lucas que, ao anunciar a Elizabeth sua decisão de se casar com Mr. Collins, justifica a escolha de modo pragmático, afirmando não buscar romance, mas um lar confortável e segurança material:
“Não sou romântica, você sabe, nunca fui. Eu só quero um lar confortável e, considerando a personalidade do sr. Collins, seus contatos e situação financeira, estou convencida de que minha chance de ser feliz com ele é tão boa quanto a de qualquer pessoa ao contrair um casamento” (Capítulo 22).
Sua fala sintetiza de forma contundente a condição das mulheres da aristocracia rural: o amor surge como luxo, enquanto a estabilidade econômica e a permanência na mesma classe social se impõem como necessidade.
Jane e Elizabeth Bennet representam diferentes formas de resistência a essa lógica. Jane deseja se casar com Bingley por estar genuinamente apaixonada, e não apenas por sua riqueza. Elizabeth, por sua vez, recusa propostas que não envolvem afeto, respeito e afinidade moral, como demonstra ao rejeitar o primeiro pedido de casamento de Darcy. Ela é uma personagem que equilibra razão e sensibilidade (para usar o título do primeiro romance publicado por Austen) aliadas à vivacidade, à autocrítica e a uma autonomia rara entre mulheres de sua classe social. Em uma sociedade que valoriza aparência e status, Elizabeth defende a sinceridade dos sentimentos (traço esse que talvez explique por que ela se tornou uma das heroínas mais queridas entre leitoras e leitores atuais de Austen).
A relação que Elizabeth desenvolve com Darcy vai além de um romance e se configura como um processo de aprendizado mútuo. Ambos precisam reconhecer seus próprios erros para que o vínculo entre eles se fundamente na igualdade de caráter. Darcy deve moderar o orgulho associado à sua posição social e reconhecer a inteligência e a integridade de Elizabeth, apesar de sua falta de fortuna, abandonando o preconceito que nutre em relação a pessoas de classes sociais consideradas inferiores à sua. Elizabeth, por sua vez, precisa superar os juízos precipitados que fez sobre Darcy e deixar de lado certo orgulho para reconhecê-lo como ele é. A trajetória do casal pode ser lida como uma representação da reconciliação entre mérito pessoal e status social, um ideal liberal em ascensão na Inglaterra do início do século XIX.
A crítica a um sistema legal que transforma as mulheres em apêndices dos maridos ou dos pais, assim como à hipocrisia que permeava a aristocracia rural inglesa do tempo de Jane Austen, atravessa toda a narrativa de Orgulho e Preconceito. Ainda assim, é importante reconhecer que essa crítica possui limites, diretamente ligados ao contexto histórico de produção da obra. Por exemplo, enquanto a autonomia de Elizabeth, exercida dentro dos códigos de gênero de sua época, é valorizada, o mesmo não ocorre com Lydia, sua irmã mais nova. As escolhas dessa irmã Bennet são apresentadas de forma negativa, tanto por se vincular a um personagem caracterizado como moralmente duvidoso quanto por fugir com ele e passar a viver sob o mesmo teto sem ter contraído matrimônio.
As atitudes de Lydia, consideradas impróprias para as mulheres “de bem” daquele período, são censuradas tanto pela narrativa quanto pelos demais personagens. Elas são apresentadas como resultado de escolhas irracionais, guiadas pelo desejo e não por um “amor verdadeiro”. Este, no romance, pode coexistir com a iniciativa feminina, mas apenas quando associado a uma posição social estável (a obra nunca deixa de reconhecer a importância de boas condições financeiras para a consolidação de uma relação conjugal) e quando realizado dentro das normas socialmente legítimas do casamento à época. Ainda assim, mesmo nos momentos em que hierarquiza e censura determinados comportamentos femininos (e também masculinos, por meio de personagens como Mr. Collins e George Wickham), a narrativa preserva a leveza e a ironia que são marcas registradas de Jane Austen.
Justamente por equilibrar crítica social, leveza narrativa e humor, Orgulho e Preconceito permanece, para mim, um dos romances mais interessantes do século XIX. Ao encenar conflitos aparentemente domésticos, mas profundamente políticos, Jane Austen registra, nessa obra, algumas das engrenagens da sociedade inglesa de seu tempo, na qual questões como herança, renda, classe social e gênero moldavam de forma decisiva as possibilidades de escolha (sobretudo as das mulheres). O romance oferece, assim, uma via privilegiada para compreendermos certos aspectos do funcionamento da aristocracia rural inglesa, classe à qual a própria Austen, afinal, também pertencia.
¹ Victor Menezes é Bacharel e Licenciado em História e Mestre em História Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente desenvolve pesquisa de doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Unicamp e atua como organizador e mediador do Clube de Leitura Literistórias.




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