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"Persuasão", de Jane Austen

  • Writer: Literistórias
    Literistórias
  • 5 days ago
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Por Victor Menezes¹



Publicado postumamente em 1817, Persuasão, de Jane Austen, destaca-se no conjunto de sua obra pelo tom mais melancólico e reflexivo. Escrito entre 1815 e 1816, nos últimos anos de vida da autora, o romance tem como protagonista Anne Elliot, cuja trajetória é profundamente marcada pelo tema que lhe dá título. Anos antes do início da narrativa, Anne fora persuadida por sua amiga, a viúva Lady Russell, a recusar o pedido de casamento de Frederick Wentworth. A decisão apoiava-se na posição social considerada inadequada do jovem, que não partilhava do mesmo status nem dispunha de recursos financeiros significativos. As consequências dessa escolha, no entanto, persistem: Anne permanece ligada, em silêncio, a esse passado e ao homem que nunca deixou de amar.

A família de Anne integra a gentry inglesa (aristocracia rural), e seu pai, Sir Walter Elliot, detém um título de baixa nobreza, o de baronete. Ele personifica o aristocrata vaidoso, excessivamente preocupado com aparência e distinção social. A irmã mais velha, Elizabeth, reproduz essa mesma lógica e, embora já considerada em idade avançada para os padrões da época, mantém a expectativa de um casamento vantajoso, ancorado em sua posição e aparência. Já Mary, a caçula, casada com Charles Musgrove - também membro da gentry -, caracteriza-se por um comportamento mimado e frequentemente hipocondríaco. Nesse contexto familiar, Anne ocupa uma posição marginal, sendo tratada como uma espécie de “patinho feio”. Apenas Lady Russell demonstra por ela um afeto genuíno.

Diferentemente de outras protagonistas de Jane Austen, Anne não está no centro das expectativas familiares, não é considerada particularmente bela e tampouco se encontra na idade ideal para o casamento. Ainda assim, um tema recorrente na obra da autora se mantém: as dificuldades financeiras que afetam a família da protagonista. Em razão da gestão imprudente de seus recursos, Sir Walter Elliot aproxima-se da ruína econômica. Para evitá-la, decide transferir-se para a cidade de Bath e alugar Kellynch Hall, a propriedade rural que simboliza seu status e onde os Elliot viveram até então. Nesse momento, surge uma família de origem burguesa, cuja ascensão social ligada à atuação na Marinha durante as Guerras Napoleônicas lhes permite tornar-se inquilinos dos Elliot: os Croft.

A chegada dos Croft reintroduz, na vida de Anne, seu antigo amor, já que Mrs. Croft é irmã de Wentworth. Recém-retornado à Inglaterra, ele agora ostenta a patente de capitão e, graças aos serviços prestados à Marinha, tornou-se um homem rico. Forçada a conviver no mesmo círculo social que Wentworth e os Croft, já que Sir Walter e Elizabeth, ao partirem para Bath, a deixaram sob os cuidados dos Musgrove (cuja propriedade, Uppercross, é vizinha a Kellynch Hall), Anne se vê diante da possibilidade de ser alvo do ressentimento daquele a quem outrora recusou. Ao mesmo tempo, precisa acompanhar a crescente proximidade entre ele e Henrietta e Louisa Musgrove, possíveis candidatas a sua futura esposa. 

Em meio a esse conflito, Persuasão oferece ao leitor um interessante retrato da Inglaterra de seu tempo. A tradicional nobreza fundiária passa a dividir espaço com indivíduos que ascenderam socialmente por meio do serviço naval. Frequentemente alvo de desconfiança por parte da gentry, esses novos ricos procuram adotar seus hábitos e valores. Dessa forma, devido em muitos casos disporem de maior poder econômico, conseguem alugar ou adquirir propriedades rurais de prestígio. O romance explora, assim, um momento de transição social, no qual hierarquias tradicionais começam a ser tensionadas. Esse movimento, claro, não era inteiramente novo, e já vinha sendo observado na atuação da alta burguesia comercial (como se observa nos Bingley, de Orgulho e Preconceito). A diferença aqui, contudo, reside na ampliação dessas possibilidades de ascensão impulsionadas pelas Guerras Napoleônicas.

Junto à representação dessas diferentes elites, bem como de suas tensões e formas de interação, o romance também constrói um painel de personagens femininas situadas em distintas condições sociais. Figuras como Elizabeth Elliot e as irmãs Musgrove evidenciam a centralidade do casamento como principal horizonte para as mulheres da gentry. Personagens como Lady Russell e a Sra. Smith (também amiga de Anne), por sua vez, apresentam os efeitos da viuvez em contextos diversos: ora como espaço de relativa autonomia, ora como condição de vulnerabilidade extrema. A trajetória da Sra. Smith, em especial, explicita a precariedade das mulheres sem recursos e sem condições de exercer alguma profissão, dependentes de redes de sociabilidade e da ação de terceiros para garantir sua subsistência.

O romance também apresenta modelos contrastantes de relações conjugais. A união entre o almirante Croft e sua esposa sugere um ideal baseado no companheirismo e na afinidade de caráter, em contraste com vínculos mais frágeis ou interesseiros, como o de Charles e Mary Musgrove. Ainda no que tange às relações de gênero, não posso deixar de destacar o trecho em que Jane Austen recorre à voz de Anne para introduzir uma reflexão incisiva sobre a exclusão feminina dos espaços de produção intelectual. Ao ser confrontada por um personagem masculino, que defende a suposta inconstância das mulheres - argumento que ele considera validado pela ficção -, a protagonista reage:


“Os homens tiveram toda a vantagem sobre nós em contar a própria história. Eles recebem educação em um grau muito maior; a pena tem estado em suas mãos. Não admitirei que os livros provem alguma coisa”.


Essa passagem revela uma consciência crítica de Anne - e da própria autora - em relação à tradição literária. Ao questionar a autoridade desses discursos, o romance sugere que a literatura está longe de ser neutra, sendo atravessada por relações de poder que determinam quem pode falar e quais histórias são legitimadas. Sempre que releio esse trecho, recordo-me das reflexões de Virginia Woolf em Um Teto Todo Seu (publicado em 1929), nas quais a autora ilustra esse processo de exclusão ao imaginar a figura de uma irmã de William Shakespeare, chamada Judith: igualmente talentosa, mas impedida de desenvolver seu potencial em razão das restrições sociais impostas às mulheres. Privada de educação formal, de autonomia e de acesso aos espaços públicos, essa personagem hipotética não apenas deixaria de produzir, como acabaria silenciada e destruída pelas próprias circunstâncias. 

Felizmente, Jane Austen nasceu em um contexto social e familiar que favoreceu o florescimento de seu talento. Sua escrita, ainda que produzida sob os limites de seu tempo, pode ser compreendida como uma forma de resistência ao apagamento das vozes femininas na tradição literária. Ao conferir centralidade a personagens como Anne Elliot, a autora inscreve, no campo literário, experiências por muito tempo marginalizadas. Mais do que uma narrativa de reencontro amoroso, Persuasão configura-se como uma reflexão sobre os modos pelos quais sujeitos, especialmente mulheres, exercem formas de agência, resistem e se redefinem no interior das restrições sociais que os condicionam.


¹ Victor Menezes é Bacharel e Licenciado em História e Mestre em História Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente desenvolve pesquisa de doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Unicamp e atua como organizador e mediador do Clube de Leitura Literistórias.

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