"Razão e Sensibilidade", de Jane Austen
- Literistórias

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Por Victor Menezes¹
Razão e Sensibilidade foi o primeiro romance de Jane Austen a ser publicado. Como era comum entre as escritoras da época, sua primeira edição, lançada em 1811, apareceu sob pseudônimo: “By a Lady” (“Por uma senhora”). A obra acompanha a vida da Sra. Dashwood e de suas três filhas, Elinor, Marianne e Margaret, após a morte do patriarca da família. Por conta das regras de herança daquele período, quase todos os bens são herdados unicamente pelo filho mais velho do Sr. Dashwood, fruto de seu primeiro casamento. Assim, as quatro mulheres Dashwood enfrentam uma situação de perda e instabilidade financeira semelhante à que poderia ter acontecido com as mulheres da família Bennet, do romance Orgulho e Preconceito, caso o Sr. Bennet tivesse morrido antes que suas filhas se casassem.
Como temia a Sra. Bennet, ao se tornar viúva, a Sra. Dashwood vê-se rapidamente desalojada: Norland Park, que até então fora o seu lar, passa a ser ocupado pelo novo herdeiro, junto de sua esposa, Fanny Dashwood, seu filho e seus criados. À viúva e às filhas resta, portanto, buscar uma nova residência compatível com a renda limitada de que dispõem, a fim de preservar sua posição social e evitar a necessidade de exercer uma profissão - algo considerado inadequado para mulheres de sua classe. Amparadas pela caridade de um parente distante, Sir John Middleton, as Dashwood mudam-se para Barton Park, no então distante condado de Devonshire. Nesse novo espaço, estabelece-se a maior parte das relações sociais que impulsionam a trama, incluindo o encontro com personagens centrais como John Willoughby e o coronel Brandon.
O romance articula o destino dessas personagens femininas pertencentes à gentry (aristocracia rural) a uma crítica ao sistema jurídico e patriarcal da Inglaterra do período, que restringia o direito das mulheres à propriedade e, com isso, as colocava em posição de vulnerabilidade econômica e social. Como é recorrente na obra de Austen, essa crítica social se entrelaça a uma trama de encontros e desencontros que culmina no casamento das protagonistas, Elinor e Marianne Dashwood. Tais uniões, contudo, diferentemente do que se observa em narrativas românticas contemporâneas, não são representadas apenas como realização afetiva, mas também como garantia de segurança social. Nos romances de Austen, a felicidade conjugal só se concretiza quando o matrimônio concilia três dimensões: a estabilidade econômica das mulheres; o amor; e a igualdade moral entre os cônjuges.
Antes de alcançarem esse desfecho, contudo, as protagonistas passam por um processo de aprendizado mútuo, que parte do dualismo inscrito no título do romance. Elinor e Marianne encarnam, respectivamente, a razão - associada à prudência e ao autocontrole - e a sensibilidade - vinculada à intensidade emocional e ao impulso romântico. Essas disposições moldam profundamente seus relacionamentos amorosos: Marianne, orientada pela sensibilidade e pela recusa a determinados protocolos sociais característicos da gentry, envolve-se com Willoughby, seu primeiro grande amor, em uma relação marcada pela intensidade da paixão e do desejo; Elinor, por sua vez, guiada pela racionalidade, abdica de expressar abertamente seus sentimentos por Edward Ferrars (o irmão mais velho de Fanny) ao descobrir seu noivado com Lucy Steele.
Em decorrência de suas personalidades e escolhas, ambas sofrem e é precisamente desse sofrimento que emergem seus processos formativos: Marianne, devastada pela traição de Willoughby, confronta os limites de uma sensibilidade desmedida; Elinor, por outro lado, passa a reconhecer o valor de viver e de ser sincera com suas emoções. Ao final, o romance sugere a construção de um equilíbrio entre razão e sensibilidade como horizonte ideal para as protagonistas. Paralelamente, a narrativa desenvolve uma crítica a determinados perfis de feminilidade vigentes, especialmente aqueles associados a uma educação feminina que formava mulheres para a superficialidade e para a conveniência social, tornando-as incapazes de exercer plenamente a racionalidade.
É nas personagens Lucy e Anne Steele que Austen encena, por meio de sua característica ironia, esse modelo de feminilidade. A partir delas, o romance parece dialogar, ainda que de modo indireto, com algumas das críticas feitas por Mary Wollstonecraft em Reivindicação dos Direitos da Mulher (publicado em 1792). Nesse célebre ensaio, a filósofa feminista sustentara que a desigualdade entre os sexos decorria, em grande medida, da ausência de uma educação racional para as mulheres. Wollstonecraft criticara veementemente o modelo formativo que reduzia o sexo feminino a “damas sedutoras”, treinadas em aptidões superficiais - como o bordado, a música e a dança - que reforçavam um ideal de feminilidade voltado à ornamentação, e não ao desenvolvimento do pensamento crítico.
Austen, ao construir Elinor como uma personagem dotada de discernimento e Marianne como uma mulher culta, afasta-as desse ideal de formação; já as irmãs Steele figuram como produtos dessa educação deficiente, orientada pela conveniência e pela dissimulação. Ao contrastar essas personagens, o romance dramatiza uma crítica mais ampla: a negação da educação às mulheres não apenas limita suas possibilidades, mas também contribui para a reprodução das estruturas de dependência que as subordinam. Nesse sentido, Austen parece traduzir em ficção o argumento filosófico de Wollstonecraft de que a mulher deve desenvolver sua inteligência e sua virtude, e não apenas suas “graças encantadoras”.
Se as personagens femininas centrais são bastante interessantes de acompanhar, o mesmo não me parece ocorrer com os personagens masculinos. John Willoughby retoma um tipo bastante comum na obra de Austen, próximo ao de George Wickham, de Orgulho e Preconceito: jovem, atraente, mas orientado somente por interesses financeiros e por uma conduta que leva mulheres à desgraça pública. Edward Ferrars, por sua vez, é construído como um contraponto ético a Willoughby, mas sua falta de iniciativa em praticamente todos os aspectos da vida o torna, para mim, um personagem extremamente insosso. Ainda que a narrativa nos force a considerá-lo virtuoso por não romper o compromisso assumido com Lucy Steele, mesmo já não a amando, confesso que não consigo compreender o que ele tem de atraente para Elinor.
O desfecho envolvendo o coronel Brandon, por sua vez, é o que menos me agrada entre os romances da autora. A meu ver, ele é quem mais compartilha afinidades com Elinor e seria, portanto, um par ideal para ela. Além disso, considero que a trama poderia ter seguido outro rumo no que diz respeito a Willoughby. Em vez de reiterar, ainda que parcialmente, o destino de George Wickham, acredito que seria mais interessante se a narrativa explorasse uma possível redenção do personagem, permitindo que Marianne alcançasse um final feliz ao seu lado. Evidentemente, trata-se de uma leitura pessoal, guiada pelas minhas expectativas como leitor. Jane Austen, por outro lado, opta por um desfecho alinhado à sua proposta moral: a felicidade não está em decisões guiadas apenas pela razão ou pela emoção, mas no equilíbrio entre ambas.
¹ Victor Menezes é Bacharel e Licenciado em História e Mestre em História Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente desenvolve pesquisa de doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Unicamp e atua como organizador e mediador do Clube de Leitura Literistórias.




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