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"A garota dinamarquesa", de David Ebershoff

  • Writer: Literistórias
    Literistórias
  • Jun 8
  • 4 min read

Por Victor Menezes¹



A Garota Dinamarquesa é um romance histórico escrito pelo estadunidense David Ebershoff e publicado originalmente em 2000. No Brasil, a obra foi lançada em 2016, mesmo ano da estreia da adaptação cinematográfica homônima. Ambientado entre 1925 e 1931, o livro apresenta, de forma ficcionalizada, duas importantes figuras históricas da comunidade LGBT+ do século XX: Lili Elbe (1882-1931), uma das primeiras mulheres trans a realizar cirurgias de afirmação de gênero, e Gerda Wegener (1886-1940) - chamada de Greta no romance -, artista bissexual e esposa de Lili durante o período em que esta ainda era socialmente reconhecida pelo nome de Einar Wegener. 

A narrativa acompanha o processo de transição de Lili, desde o momento em que Greta pede que Einar pose para uma pintura no lugar de uma modelo que havia cancelado a sessão (episódio apresentado pelo romance como um momento importante no processo de afirmação de sua identidade de gênero) até a realização de uma cirurgia experimental de transplante de útero, motivada pelo desejo de Lili de poder gerar filhos. Paralelamente, o texto também retrata aspectos da vida de Greta e de suas relações sociais. Sem pretensão biográfica, Ebershoff combina elementos documentados da vida das duas (retirados, sobretudo, de Man into Woman, autobiografia semificcional de Lili publicada em 1933) com personagens e tramas inteiramente ficcionais.

Do ponto de vista temático, A Garota Dinamarquesa se destaca por conferir protagonismo a uma personagem trans em um contexto no qual representações desse tipo eram ainda mais raras na literatura de grande circulação do que atualmente. Também chama atenção a forma como a narrativa apresenta Lili como uma mulher trans heterossexual que estabelece um relacionamento amoroso com Henrik (personagem que, diferentemente de sua contraparte na adaptação cinematográfica, é retratado no romance como um homem heterossexual que se apaixona por ela). Essa trama é relevante por se afastar de uma tendência recorrente em parte das representações de pessoas trans na cultura ocidental: a de restringi-las exclusivamente ao sofrimento, à marginalidade ou ao próprio processo de transição, sem lhes conferir vida afetiva e relacional complexa. 

Apesar disso, o romance apresenta algumas escolhas narrativas controversas. Embora os registros históricos indiquem que Gerda tenha sido uma mulher bissexual que, mesmo durante o casamento com Einar, manteve relacionamentos com homens e mulheres, Ebershoff opta por construí-la como uma mulher heterossexual e relativamente conservadora em relação ao casamento e à sexualidade. Essa alteração impacta profundamente a forma como a narrativa constrói a relação entre Greta e Lili: a aceitação de Greta em relação à transição de Lili parece decorrer menos de uma identificação afetiva com o feminino ou com a subjetividade de Lili do que de uma concepção tradicional do papel conjugal (a da esposa que subordina seus desejos e sua individualidade ao bem-estar do marido). Em passagens como a seguinte, torna-se evidente a forma como Greta é construída a partir de uma feminilidade contida e moralmente convencional: 


“Greta sentiu novamente aquela vontade de ser abraçada por Hans, mas não se permitiu ir na direção dele. Endireitou as costas e alisou as pregas da saia. Sabia que aquilo era antiquado, mas não poderia deixar-se abraçar enquanto ainda estivesse casada com Einar” (p. 265). 


Essa representação se distancia não apenas da Gerda histórica, mas também de possibilidades ficcionais potencialmente mais complexas, como a de uma Greta bissexual capaz de amar Lili para além do dever conjugal e de vivenciar seus próprios desejos sem a constante necessidade de repressão moral. 

No que diz respeito à representação de Lili e à discussão sobre sua vivência como mulher trans, a narrativa trabalha com uma separação bastante rígida entre “Einar” e “Lili”, como se fossem identidades inteiramente distintas e até mesmo conflitantes entre si. Einar, por exemplo, é pintor e se identifica com esse fazer; Lili demonstra pouco apreço pela pintura. Em vez de retratar a trajetória de uma mesma pessoa cuja identidade de gênero não correspondia ao gênero que lhe foi atribuído ao nascer, o romance frequentemente sugere que Lili teria “surgido” em determinado momento da vida de Einar, e não que sua identidade de gênero sempre existira, ainda que reprimida ou não plenamente compreendida. 

Há, ainda, uma representação da feminilidade de Lili que remete a estereótipos sexistas. Como pode ser observado na passagem abaixo, o romance a associa à delicadeza extrema, ao constrangimento e à vulnerabilidade emocional: 


“O marinheiro berrava com a mulher lá embaixo e, toda vez que a palavra ‘piranha’ atravessava o assoalho, o pescoço da moça [Lili] rubescia. Depois o rubor esmaecia” (p. 33). 


Nas interações afetivas, Lili frequentemente hesita, demonstra insegurança e assume uma postura excessivamente passiva, como se feminilidade equivalesse, por definição, à contenção e à fragilidade. A passagem a seguir condensa esse padrão com clareza:


“Às vezes, ela [Lili] ficava surpresa por não desabar sob o toque de um homem. Não acreditava que sua carne e seus ossos pudessem aguentar o escrutínio da ponta dos dedos de um homem. Sentia isso mais fortemente com Henrik, cujas mãos já haviam apalpado cada vértebra de sua espinha. Quando ele a segurara pelos ombros, ela esperara dobrar-se feito uma folha de papel, mas isso não acontecera; então Henrik continuara abraçando-a e beijando-a” (p. 304).


Tanto essa representação de Lili quanto a construção de Greta estão ligadas a imaginários heteronormativos sobre gênero e feminilidade que são mobilizados, no texto, sem questionamentos. 

O romance é, nesse sentido, um exemplo interessante de como uma obra de temática LGBT+ não está, por si só, isenta de mobilizar concepções conservadoras sobre gênero, sexualidade e afetividade. Ao mesmo tempo em que amplia a visibilidade de uma personagem trans em um período no qual esse protagonismo era raro, o livro enquadra essa experiência dentro de modelos de feminilidade relativamente normativos. Ainda assim, justamente por suas ambiguidades e tensões, A Garota Dinamarquesa permanece uma obra interessante para se refletir não apenas sobre a trajetória histórica de Lili Elbe, mas sobre os limites, disputas e imaginários que atravessam as representações de gênero e sexualidade na literatura contemporânea.


¹ Victor Menezes é Bacharel e Licenciado em História e Mestre em História Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente desenvolve pesquisa de doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Unicamp e atua como organizador e mediador do Clube de Leitura Literistórias.

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