"A Letra Escarlate", de Nathaniel Hawthorne
- Literistórias

- Jan 6
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Por Victor Menezes¹
O romance A Letra Escarlate, do escritor estadunidense Nathaniel Hawthorne, foi publicado em 1850. Seu enredo gira em torno de Hester Prynne, personagem feminina que é condenada por sua sociedade a usar no peito uma letra “A” - de adultério - escarlate como punição por ter tido uma filha fora do casamento. Essa filha, Pearl, é inteligente, indomável e desafia as convenções sociais de seu tempo. Outros dois personagens que recebem destaque na narrativa são Roger Chillingworth, marido de Hester, que busca vingança contra o homem que considera responsável por sua desonra, e Arthur Dimmesdale, respeitado pastor que esconde um segredo: ele é cúmplice de Hester no adultério e pai de Pearl.
A história se passa no contexto da colonização da Baía de Massachusetts por puritanos ingleses. Atualmente, essa região corresponde às áreas em torno das cidades de Boston e de Salém, no nordeste dos Estados Unidos. Os puritanos, por sua vez, eram um grupo religioso que se separara da Igreja Anglicana, a igreja oficial da Inglaterra formada pelo rei Henrique VIII em 1534. Inspirados pelas ideias do teólogo João Calvino, uma das figuras centrais da Reforma Protestante do século XVI, os puritanos defendiam uma vida pautada por regras morais rígidas e por uma obediência absoluta aos princípios religiosos.
Segundo Nevins, Commager e Morris, autores de Breve historia de los Estados Unidos (1996), os puritanos deixaram a Inglaterra com o objetivo de estabelecer na América uma sociedade na qual a igreja estivesse integrada ao governo e seus valores conservadores fossem a norma. Leandro Karnal, em História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI (2007), explica que, ao colonizar a Baía de Massachusetts a partir da década de 1620, os puritanos tomaram medidas para garantir esse modelo. Por exemplo, limitaram o direito ao voto e a cargos públicos apenas aos membros da Igreja Puritana. Além disso, conferiram à igreja e ao governo o poder conjunto de punir quem desobedecesse às regras religiosas ou cometesse crimes.
Um dos episódios históricos mais marcantes que resultou desse modelo político foi o da perseguição às chamadas “bruxas de Salém”, ocorrido em 1692. Nesse contexto, a teocracia puritana aprisionou quase 200 pessoas e executou 14 mulheres e 6 homens acusados de bruxaria. Nathaniel Hawthorne descendia de um dos juízes que atuaram nesses infames julgamentos - por vergonha desse passado, acrescentou um “W” ao sobrenome original Hathorne - e, ao compor o enredo de seu romance, decidiu ambientá-lo cerca de meio século antes de tais eventos, entre os anos de 1642 e 1649. A Letra Escarlate trata-se, portanto, de um exemplo clássico de romance histórico.
Esse gênero literário surgiu em 1814 com Waverley, do escocês Walter Scott, e se caracteriza por ambientar suas tramas em um passado historicamente definido. Ao representar esse passado, contudo, o romance histórico inevitavelmente o reconstrói a partir das preocupações, valores e dilemas do tempo presente em que é escrito. Afinal, como é impossível reviver o passado, o autor só consegue imaginá-lo e representá-lo com base nas referências e experiências de seu próprio contexto. Por isso, todo romance histórico diz mais sobre o presente de sua criação do que sobre o passado que procura retratar.
Outro aspecto do romance histórico é que ele não surge em um vácuo, mas sim a partir de um diálogo com múltiplas fontes e referências, tais como: 1. as interpretações do autor sobre documentos históricos disponíveis e o tempo histórico retratado; 2. os estudos historiográficos existentes; 3. o imaginário coletivo sobre o período retratado; e 4. as ideologias vigentes na época da escrita. É nesse diálogo, entre erudição, cultura popular e ideologias do tempo de sua escrita, que as ficções históricas constroem ou legitimam algumas versões do passado e questionam outras.
No caso de A Letra Escarlate, tanto o tema central quanto seu tratamento revelam mais sobre o século XIX do que sobre o século XVII. Na Massachusetts colonial, uma história protagonizada por uma mulher adúltera dificilmente seria publicada. Tampouco seria aceita uma trama em que o cúmplice desse adultério fosse um dos pastores mais respeitados de uma comunidade puritana fictícia, ou que uma personagem adúltera tivesse uma trajetória de redenção. Essas escolhas narrativas feitas por Hawthorne são fruto de seu tempo e dizem respeito a temáticas que eram (ou estavam se tornando) de interesse da literatura ocidental do século XIX.
Ao criticar a hipocrisia e o autoritarismo da teocracia puritana por meio dos pastores-juízes que condenam Hester; ao satirizar crenças populares sobre bruxaria utilizando a personagem histórica Ann Hibbins - condenada por bruxaria pelos puritanos em 1656; ou ao construir a jornada redentora de Hester, Hawthorne interpreta e representa o passado a partir do olhar de (e sobre) seu próprio tempo: um período marcado por maior ceticismo em relação à existência de bruxas, mas ainda profundamente influenciado por religiões protestantes; uma sociedade em que as mulheres já não precisavam carregar fisicamente uma letra escarlate em suas vestes, mas que mantinha o ideal de feminilidade centrado no casamento e na castidade.
Embora, ao final da trama, Hester não seja punida com a morte - como acontece com outras famosas personagens adúlteras da literatura do século XIX, como Emma Bovary, Anna Kariênina e Luísa de Mendonça de Brito -, sua trajetória é marcada por humilhações públicas e profundo sofrimento. Sua redenção acontece a partir da aceitação do pecado cometido, da dedicação intensa ao cuidado das pessoas da comunidade, da castidade mantida após o nascimento de Pearl e da fidelidade ao homem que a engravidou. Ainda que A Letra Escarlate possa ser lido hoje como uma crítica à desigualdade imposta às mulheres, é inegável que sua protagonista foi construída em conformidade aos ideais de feminilidade comuns às sociedades patriarcais oitocentistas.
¹ Victor Menezes é Bacharel e Licenciado em História e Mestre em História Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente desenvolve pesquisa de doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Unicamp e atua como organizador e mediador do Clube de Leitura Literistórias.


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